Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Era uma mulher muito negra mais enegrecida pela sujeira da rua que cobria seu corpo, já sem brilho pela falta de beleza da rua que corrompia seu corpo, já deformado, bestializado. As pernas já sem curvas, transformada numa espécie de tronco único, rodeado de veias muito grossas, muito expostas. Alguma espécie de doença que manietava aquele corpo já manietado pela falta de juízo. As ruas são cruéis. E a crueldade mórbida transformava aquele corpo daquela mulher que já não era jovem, talvez ainda sendo. Sua idade impossível saber. Os olhos de desespero. O ventre carregando um filho sabe-se lá de quem. Talvez de um desses homens cruéis da rua, que se servem das mulheres que dormem nas sarjetas, como se fossem coisa pública. O corpo delas não é próprio delas. É da rua, tal qual banco, tal qual poste, tal qual calçada. E no Brasil coisa pública é pra se destroir. No caso de mulher, é pra se estuprar. Pediu-me cinco centavos e no movimento automático de quem espera ônibus na rua às 22h, segurei minha bolsa. Temi. Ela visivelmente estava nervosa. Transtornada e faminta. Alguém ao meu lado retrucou "esse povo da rua tem mais dinheiro no bolso do que a gente. Tá melhor que nós". Aquilo me doeu meio dilacerado. Aquela vida podia ser melhor que a minha? Podia como? Eu que sou dona do meu corpo (ao menos penso), que estou me sentindo fraca, entro na farmácia e compro remédios. Que durmo sob meu colchão D-33. Que passo colônia de Lavanda antes de ir pro trabalho. Que quando tenho fome como. Quando sinto sede, peço água mineral. Como posso eu achar que a vida dela é melhro que a minha. Fui atrás dela e lhe dei uma moeda, profundamente envergonhada. Envergonhada por eu ter direitos e ela não. Por eu estar indo para minha casa, tomar banho quentinho, uma sopa e dormir. E ela? "O dinheiro que você dá vai sustentar o vício dela". Mas o que uma pessoa ao relento pode querer mais do que anestesia para sua dor? Não posso eu, mulher que durmo em lençóis macios, julgar ela. Esse direito eu não tenho.
Agradeço as palavras carinhosas dos amigos que me afagam.
Agradeço muito sinceramente. É o que me recupera desses meus pensamentos tortos.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Sim, somos sinônimos da beleza. E me é difícil dizer somos. Porque ia começar a frase com as mulheres. Não que me esqueça de que mulher sou, mas me debato com a beleza. Me engalfinho com ela. Eu que sou torta e ignorante.
Há demais beleza no ser mulher, no seu corpo, na sua delicadeza e sua força. Talvez por isso nos domestiquem, nos objetifiquem, nos castrem. É grande demais a força dessa beleza. É inebriante.
enfim, preciso perceber essa riqueza em mim. Sei que a tenho, mas acredito pouco nela.
Mas hei de crer. tudo vai dar pé.

Domingo, Setembro 27, 2009

Tem horas que avanço e tem horas que me debato com as mesmas questões de sempre. Acho que dessa vez vou escrever assim, sem compromisso com nada a não ser a tarefa de jogar ao vento esses pensamentos velhos, que me pegam pelo pé. Percebi que oscilo incrivelmente. No mesmo dia, me sinto bonita, atraente. Mas chega à noite, tudo vai por terra e me deparo com a impossibilidade de me sentir sexy ou qualquer coisa parecida. Embora me saiba fogosa, para não dizer lasciva, me sinto meio sem graça aos olhos da maioria dos homens. Embora tenha dúvidas se é assim mesmo. Na verdade, não tenho certeza de nada. Essa dúvida toda me dá cansaço. Assim como cansaço me dá a tarefa do amor. Ando cansada, descrente. De um certo amargor, de uma certa indisposição. Cansei de lutar, de ser poeta, doce e tentar tecer histórias. Ando de preguiça e uma certa desesperança. Sei que há amor, há em minha alguma capacidade de amar. Mas por ora há cansaço.
E percebi algo feio outro dia: sinto inveja. Inveja desprovida de qualquer maldade, que fique claro. Mas inveja da beleza notada das outras mulheres. De serem bonitas e eu, ao meu ver, não. Bobagem sentir isso aos 30 anos. Mas sinto, porque em verdade, sei que o que é solicitado primeiro de uma mulher é a beleza. E enfim, embora me sinta bonita em algumas horas do dia, não sei se me faço acreditar bonita aos olhos dos outros. Isso me dá uma certa sensação de fracasso. E por isso sinto inveja das moças. Elas são reconhecidamente belas. Sem fazer esforço. E eu vivo me esforçando e é tão cansativo...tão cansativo não ser bonita de havaiana e camiseta. Tenho que usar vestido de bom corte, acessórios criativos, maquiagem, sapato fashion, estar bem perfumada e com os cabelos hidratados. Ainda assim, talvez, não esteja bonita. E enfim, sou infantil e sofro.
E ok, sei que é ridículo sentir isso aos 30, mas sinto e sinto com uma dorzinha de perceber que o tempo está passando. E estou lutando. Sei que mudei muito. Muito. Luto pra ser melhor, para me resolver, para me conhecer mais...mas é fato: essa chaga diante do espelho, essa chaga que me impede de desenvolver a capacidade de jogar charme, essa chaga pesa na minha nuca e me faz enterrar a cabeça pra baixo.
Ai que cansaço...

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Desejo é armadilha. Desejo faz a gente querer o que a gente não quer.
Desejo faz a gente sentir sede depois de beber água.
Desejo é piolho, parasita, tira o sono.
Provoca queimada, secura, destrói pasto.
Alça vôos, tira do lugar.
Desejo ficar calma. Desejo ficar quieta.
Desejo outro desejo.
Começo o texto um pouco sem saber sobre o que escrever. Talvez pensando sobre o quanto eu sinto que precisamos de gentileza. O quanto é mais prazeroso ser gentil, que ser grosseira. Mas o quanto é difícil ser humano num tempo onde a brutalidade impera. Também não sei se todo esse falatório faz sentido, se não é piegas. Sinto uma certa felicidade em estar sendo eu mesma, em deitar na cama, no perfume de lavanda. Mas embora tão feliz, ainda agora mais cedo veio aquela insegurança velha: devo não ser bonita mesmo. Por que a beleza dos outros sempre me coloca a prova? Quando no fundo eu fico feliz de estar perto da beleza...não sei. Ainda me diminuo muito rapidamente. Não, não estou curada. Ainda chorei rapidinho ontem. Tão rápido que dormi no meio do choro. Uma saudade...um reconhecimento da tristezinha de não ter conseguido. Mas enfim...passou. No fundo, estou feliz hoje. E querendo muito trabalhar, conquistar, viver a vida. Com leveza, com amor, com delicadeza. Nunca disse a ele que o amo. Não é auspicioso. Eu sou tão carente. Fiquei triste porque uma amiga abraçou a todos menos a mim. Não consigo ser indiferente. No fundo pode não ser nada. Mas a intuição (ou loucura) me aponta que não. Felicidade por acreditar nos sorrisos bonitos em volta de mim. Sou abençoada.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Aqui,sentada na minha mesinha de trabalho. No computador, que traz adesivos de Pucca e São Jorge, tomando meu chá verde na minha caneca rosa de bolinhas brancas e olhando minha bonequinha preta que está aqui do lado, percebo que há uma grande alegria em mim por trabalhar.
Posso reclamar ao acordar, ficar preguiçosa. Mas fico feliz quando aqui chego. Gosto do meu trabalho. Do que faço. Enquanto todos pixam a minha profissão, eu encho o peito e gosto dela. Gosto de ser jornalista. Gosto de ser repórter quando sou. Por mais besta que seja a matéria, procuro fazê-la com seriedade. Seja a entrevista com gente colunável. Seja com gente simples. Seja sobre meio ambiente. Seja sobre tapetes. Gosto do que faço. Gosto de ser educadora. De pentelhar os meninos até aqueles consigam se exprimir bem. Faço meu trabalho com carinho. Embora por vezes, seja um pouco desleixada e preguiçosa. Mas não quero isso, sabe? Se estou bem, de bem com a vida mesmo, faço com seriedade. Quero que as coisas dêem frutos e tenham sentido. Na verdade, o sentido e o significado me movem.
E cá estou. Trabalhando muito. Mas muito feliz de fazê-lo. E desejo verdadeiramente que minha vida seja impregnada disso para todo o sempre. De vontade de trabalhar, de plantar, semear, de fazer as coisas com verdade. Não de mentirinha.
Que seja assim. Todo o dia. Todo o sempre.

Domingo, Agosto 30, 2009

Mais fácil olhar as fotos dos momentos superficiais.Tenho dificuldade em ver meus olhos nos momentos que foram verdadeiramente especiais. Me dá uma espécie de nó na garganta. Ver um brilho que já não tenho mais, uma esperança que já azedou. Um amor que ficou só no meu peito e esse brilho que já não existe mais.
Que coisa dura é ter saudades...

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Esta noite chovi demais para noite de primavera
Ventania e tempestade
Sensação clara de que o inverno ainda não acabou

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Quereres

Queria assim o mar nos pés, um pouco de sol na cara sobre a tez do protetor solar. Queria assim deitar na cama um pouco, ventilador ligado e ninguém mais dizer nada.
Queria assim outro amante, outro amigo, outro coito, outra voz, uma mensagem, um telefonema, um galanteio, um pouco de novidade.
Queria assim não sei outra casa menor sozinha. Queria assim outra rua sem medo balançar a bolsa, atender o telefone, voltar para casa tarde da noite.
Queria assim dinheiro no bolso, nenhum pedinte, fazer o que quero, subir nas alturas, nadar no mar do Porto. Queria assim descansar quando estivesse cansada, trabalhar quando tivesse muitas idéias.
Queria assim dançar essa noite, dançar com as pernas, com os quadris, com os olhares.
Queria assim nova idade. Parar esse relógio e para sempre ter 30 anos com a maturidade de mais tempo.
Queria assim novidade.

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Hum...tenho impressão que enquanto eu dormia o amor visitou meu corpo e deu-me um beijo nos lábios. Bem leve. Suave. Docemente. Foi-se embora antes de que eu visse seu rosto, soubesse seu nome. E passei o resto do dia assim. Sem saber. Sentindo-me tão amada. Tão feliz, preenchida por algo que não sei direito o que. Um amor sem destinatário conhecido.

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

Abraçada com minha ursa velhinha, acordei mais tarde do que o planejado. Fiquei rolando na cama e sem culpa nenhuma pus-me a dormir mais um pouco. Vesti-me, tomei um iogurte e fui para academia. Primeiro dia de novo. Tenho um certo contentamento em correr na esteira e ver a quantidade de calorias que estou queimando. Peguei minha bolsa em conserto no sapateiro, passei por umas lojas e almocei uma deliciosa sopa de ervilha que eu mesma preparei. Alegre e cantante, fiz a comida do restinho da semana: macarrão com tomate e manjericão, lasanha de beringela, risoto de brocólis com abobrinha... tomei suco de caju e limpei a cozinha. Entrevistas, emails, leituras, pesquisas...um pouco de trabalho com o cheirinho bom do incenso queimando na mesinha lateral. Café com leite empelotado. E o vento entrando pela janela. Água no jarrinho das minhas plantas, conversei com elas e me regozijei de que a beleza precisa de tão pouco para florescer. Tomei banho e me perfumei com a certeza de que sou muito muito feliz, que amo minha vida, o carinho de deus comigo, as oportunidades que brotam e a descoberta disso tudo.